quarta-feira, 24 de junho de 2009

Da beleza frívola

Sabe aquela coisa efêmera da beleza? Dependendo de quem, quando e onde, ela pode durar pra sempre; se é que me entendem.

Na maioria das vezes ela é realmente efêmera, dura um instante, um momento, um dia ou meses. Mas passa, acaba. Morre de velhice ou simplesmente fica feia. E quando a beleza fica feia não há interesse profundo que persista. É um quebrar de espelho ou, pelo contrário, um olhar-se no espelho e tudo muda, de um segundo para o outro. O que lhe parecia harmonioso torna-se entediante. O que lhe soava melodioso torna-se enfadonho. O que se lhe mostrava misterioso torna-se lúgubre. O que se lhe afigurava inatingível, torna-se: impensável.

A realidade dura é que tudo muda o tempo todo, inclusive nosso interior, nossos desejos e anseios. E quando mudamos muito, muitas vezes, olhar pra trás e conferir antigos desejos pode ser um cruel exercício de auto-crítica. Aprender com o passado é bem mais difícil do que se prega por aí e quem consegue esse feito deveria ser condecorado com uma medalha.

Entretanto, não deixa de ser agradável rir de certas situações, relembrar a sensação de pura ansiedade causada por vontades infrenes. Zombar de nossos ímpetos, troçar de nossos desvarios, ocasionados por algo que acabamos por classificar como uma insanidade temporária.

Falar daquilo que passou pode ser ao mesmo tempo engraçado, triste, desolador, hilariante, incômodo e agradável. Tudo depende do nosso hoje e de como estamos enxergando a nós mesmos (e ao resto do mundo) neste momento presente.

A questão maior é: porque nossos desejos mudam tanto?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Fragilidade emocional

Odeio quando partem meu coração.

Deveria ser proibido partir o coração das pessoas. Deveria haver uma lei contra isso, protegendo quem se entrega completamente aos sentimentos, como eu. E punindo quem conquista, sem intenção de amar o conquistado. Talvez o mundo tivesse menos graça assim, mas teria menos pessoas magoadas e com coração partido por aí.

Como já disse mais de um milhão de vezes, não conheço relacionamento sem entrega. Simplesmente não faz meu gênero. Não consigo me relacionar com qualquer pessoa sem ser completamente transparente com ela. E menos ainda sem demonstrar meus sentimentos. Algumas vezes até excessivamente, admito. Mas para mim, sentimentos são assim: piegas por natureza.

Nada acaba mais com o meu dia, meu humor e minha disposição do que um corte repentino nos laços, uma frieza súbita e indefinida, um escolher de palavras estranho e alheio à espontaneidade e impulsividade de uma afeição genuína. Adoro mudanças, inclusive as súbitas e inesperadas, mas nunca de humor. Gosto de mudança de casa, de cidade, de estado, de país. Mudança de ares e de cenário. Mas detesto com veemência a mudança repentina de atitude. E porque?

Simples. Sou uma pessoa um tanto paranóica. Se alguém querido muda de atitude repentinamente comigo, sempre acho que esta pessoa está brava, chateada ou com raiva de mim, mesmo tendo plena convicção de não ter feito nada de mau ou de errado com quem começa a agir diferente, de uma hora pra outra. Acho que isso se explica facilmente pela minha transparência e sinceridade rude, pela minha mania de dizer o que penso, somados ao meu verdadeiro pavor de ser mal-interpretada. Coisa que, aliás, acontecia com certa frequência comigo. Agora não tanto, felizmente! Mas o "trauma" sempre persiste, né? Por mais que tentemos ignorá-lo. O medo de perder a admiração de alguém que conquistamos é o responsável por isso.

Ao escrever essas palavras, vejo que posso estar sendo paranóica neste exato momento (com o perdão do gerundismo). O problema é que a paranóia também é uma grande responsável por mudanças desagradáveis, que talvez nem vinham acontecendo antes, mas que acabam por concretizar-se, alimentadas pela própria paranóia...

Nem precisam entender.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Das digressões humanas

Nem que eu viva mil anos conseguirei entender algumas das coisas que motivam alguns seres humanos. Como por exemplo, se ressentir de atitudes de terceiros. Porque isso? Com que finalidade? Qual a vantagem nisso? Qual o objetivo de se incomodar tanto com a vida alheia a ponto de criar um debate sobre isso, esquecendo-se da sua própria vida?

Talvez nessa última pergunta esteja contida a resposta. Talvez o simples fato de desviar a atenção do seu cotidiano para dar pitaco nas atitudes dos outros seja como uma terapia. Talvez.

Conversando com a Helen, descobri que enfrentamos situações parecidas por algumas vezes, tanto no lado pessoal, como no profissional. Gente que pratica a maldade por puro prazer, ou tão-somente por falta do que fazer. É lamentável e deprimente isso. E em alguns momentos revoltante - como em questões profissionais.

Olho ao meu redor e vejo o mesmo tipo de discórdia acontecendo em diferentes grupos de amigos e até de ex-amigos. Gente que fala com propriedade e arrogância dos defeitos ou do modo de ser de alguém, esquecendo completamente que já pisou no cocô e todo mundo ficou sabendo. Aí, depois de limpar a bosta da sola do sapato, usa o mesmo calçado fedido pra pisar no calo do pé mais próximo. E ai de quem pisar no cocô na sua frente! Será duramente criticado.

Um dos exemplos mais claros e chocantes do que estou narrando, diz respeito a uma pessoa que nem falo mais (graças a Deus!), mas que depois de muuuuuuuuuuuuuito errar, muito tropeçar, muito usar os amigos (e ex-amigos) como muletas, só porque deu dois ou três passinhos sozinha, começou a descer a lenha sem dó em quem tropeçou (e ainda tropeça) nas mesmas pedras. Até eu mesma, antes de cortar relações, recebi disparos de sua maldosa e insensata metralhadora.

Com honestidade, é claro que eu também me incomodo com incoerências, com quem vê na maldade para com os outros um prazer, com quem ofende gratuitamente quem não lhe fez absolutamente nada, com quem escarniza da remela no olho de outrem só porque acabou de limpar a sua.

Mas daí a criar todo um debate em cima disso, como tenho visto meia dúzia de amigos de diferentes grupos fazerem, beira o ridículo. E exatamente por serem meus amigos me sinto no direito (e porque não no dever?) de dizê-lo.

Live and let live, people!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Sobre cães e gatos

Existem pessoas que, definitivamente, não aprendem.

Aquela categoria de seres humanos que levam pedrada, tomam rasteira, são chicoteadas e simplesmente, por um afago qualquer, se rendem e pulam tal qual cachorrinho bobo fazendo festinha.

Talvez por isso eu não seja tão fã de cachorrinhos bobos e fofos quanto a grande maioria das pessoas que conheço. Na verdade a maioria das pessoas na face da Terra. Os seres humanos têm um apego desenfreado por cachorrinhos (ou cachorrões) e eu nunca tinha parado pra perceber a relação entre a personalidade do animal-cão e do animal-homem. Cachorros esquecem facilmente as broncas e repreensões dadas pelo dono ou mesmo por outra pessoa à qual ele tenha apego. E grande parte dos seres humanos também são assim. O problema é que uma parcela assume, outra luta contra, outra finge ignorar. E assim os "racionais" animais-humanos vão tocando suas vidas.

Acredito que o meu caso seja da pessoa que luta contra. Acho que sou tão parecida com um cachorrinho bobo que a versão ilustrada de minha própria personalidade me irrita. Sim, basta eu gostar da pessoa para que ela tenha acesso ao meu carinho, amor e compreensão irrestritos, mesmo pisando na bola seguidas vezes. Ela chuta, o cãozinho sai ganindo. Ela chama, faz um carinho, o cãozinho já é todo festa. Animal estúpido. O humano, não o cão, que é irracional.

Tenho uma predileção natural por gatos, desde sempre. Adoro o jeito decidido com que os gatos fazem tudo em suas vidas. Adoro a atitude, nada política, de rejeitar sumariamente quem não lhes agrada. A postura sempre arisca e desconfiada, diante do desconhecido. A aproximação lenta e gradual e a conquista da confiança que eles sempre exigem de quem se aproxima. Admiro sobretudo a fidelidade absoluta e irrestrita a quem lhes cativa.

Abuse de um cachorro e ele vai lamber sua mão e brincar, até se dar conta de que você o está agredindo, não brincando. Abuse minimamente de um gato e ele vai te arranhar primeiro, defendendo-se, para depois saber se era brincadeira.

Oh, Deus, porque nasci cachorro?

sábado, 13 de setembro de 2008

Da finitude da vida

Esta minha sexta-feira foi triste, doída, chorosa. Minha família perdeu um pedaço e ficou um pouco menos sorridente e feliz. Um homem bom e generoso, amigo da família há mais de 30 anos, faleceu na noite de quinta-feira, deixando uma lacuna irreparável em nossas vidas. "Tio" Júlio era uma das pessoas mais sorridentes e alto astral que eu já conheci. Dizem que amigos são a família que a gente escolhe e pensando nele, vejo que esse ditado faz muito sentido. Ele nos escolheu, unindo nossos caminhos de uma maneira bonita e fraterna, por décadas. Esteve presente em mais momentos de dificuldades e alegrias familiares do que meu próprio pai foi capaz de estar. Pudemos contar com "tio" Júlio para nos apoiar e também para comemorar conosco por mais vezes até do que sou capaz de lembrar. Foram dezenas de Natais e Reveillóns, dezenas de aniversários, muitos nascimentos e alguns falecimentos arrasadores, como o do meu avô e os do irmão mais novo e do pai de "tio" Júlio. Situações que sempre apertaram mais os laços de carinho e fraternidade que sempre nos uniu. A partir desta noite de 11 de setembro de 2008, enquanto o mundo inteiro pranteia os milhares de mortos no atentado terrorista do World Trade Center em Nova York, na nossa família a tristeza será mais amarga e menos impessoal - lamentaremos a perda de um amigo, de um filho, de um irmão, de um primo, de um pai e um marido. De um homem bom, que dedicou sua vida, precocemente ceifada, a fazer o bem e a amar ao próximo.

Vai em paz, "tio" Júlio.
Vai ficar ao lado de Deus, de seu irmão, de seu pai e de meu avô, que sempre lhe quis bem como a um filho. Tenho certeza que Êle terá pra ti um lugar especial, um lugar repleto de luz e paz, pois fizeste por merecer.

E não esqueças de nós, pois jamais te esqueceremos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Até onde vai a estupidez humana

Eu mereço!

Estava pensando em escrever algo alegre e animado aqui, pois minha inspiração realmente estava pendendo pra esse lado. Entretanto, uma inoportuna visita às oito horas da manhã me fez voltar o pensamento, mais uma vez, para a escrotice do ser humano.

Porque algumas pessoas são tão cheias de si ao ponto de achar que intimidam as outras pessoas, fazendo afirmações levianas e tolas? Porque parece que existem pessoas que simplesmente olham pra sua cara e, sem motivo aparente nenhum, resolvem infernizar sua vida? Porque diabos quanto menos uma pessoa é na vida, mais ela tenta provar pra você, de todas as maneiras possíveis, que é alguma coisa?

Sinceramente, tem gente que não tem um pingo de noção. Tem gente que não tem noção e é barraqueira. Tem gente que não tem noção, é barraqueira e mentirosa. Tem gente que é tudo isso e ainda por cima tem uma voz irritante, uns trejeitos afeminados e cospe um monte de baboseiras, acreditando piamente que você tá caindo na conversa furada dele - esse é um morador aqui do prédio, que resolveu torrar minha paciência logo cedo.

De coração: eu queria conseguir entender o que leva uma pessoa a fazer falsas alegações em altos brados nas primeiras horas da manhã, a uma pessoa que nem conhece e afirmando categoricamente ser funcionário de uma empresa que uma simples ligação que fiz logo em seguida desmentiu. O que uma pessoa dessas ganha, criando inimizades dessa forma ridícula e absolutamente sem sentido?

Olha, o que essa pessoa ganha eu não sei, mas que se vier me encher o saco de novo terá MUITO a perder e a lamentar, ah isso vai...

domingo, 7 de setembro de 2008

Rapidinha!

Enquanto procurava fotos para o post anterior, acabei caindo num blog onde encontrei um texto que achei muito lúcido e bem escrito. Ah, como eu gostaria de ser sucinta assim!
Eis o texto:



Ser humano é, também, ser feio.
Quebrar espelhos, sair aos cacos, desfazer ídolos.

Ser humano é, também, conviver e esbarrar nessas limitações feias, bestas, que doem e fazem doer.
Ser humano é, também, aceitar essas limitações tentando o acerto.
Ser humano é, também, entender que idealizar pessoas é um equívoco.
[Pessoas são pessoas e só.]

Mas espelhos quebrados jamais voltam a ter a perfeição de antes...
Ser feio deixa claro o que é bonito.
E transformar cacos requer um tempo. Um tempo para transformar.
Paciência e respeito.Silêncio, talvez.

Escrito por Maria Aline, no Entrada para Raros.


A-do-rei. Admiro imensamente a incrível capacidade de síntese que algumas pessoas possuem. Um dia eu aprendo a ser pelo menos um pouquinho assim. :)

Ignorância emocional

O ser humano é mesmo burro.

Cheguei à essa simples conclusão outro dia ao constatar que na maioria das vezes os problemas que enfrentamos e os erros que cometemos são cíclicos. Passamos boa parte da vida batendo a cabeça nas mesmas paredes e a canela nas mesmas quinas. O mais impressionante é que a cada repetição, ouvimos as mesmas recomedações, avisos, conselhos; mas não demora muito, erramos de novo, no mesmíssimo ponto da história. Mudar atitudes não é fácil, pelo menos pra pessoas que levam a sério seus princípios. Alguém que nunca se apegou a pequenezas não vai passar a morrer de sofrimento por quebrar um palito de dentes, assim como alguém que sempre tomou pedradas da vida não irá se abalar facilmente quando lhe atiram cascalho. A questão é o que mudar, quando mudar e, principalmente, como mudar.

Relações humanas são difíceis em todos os níveis: amoroso, pessoal, profissional. Mas as relações amorosas são campeãs no quesito cegueira e insanidade temporária. Vejo amigos e amigas mudando completamente seu jeito de ser, muitas vezes com consciência disso, em prol do "ser amado". Pessoas acreditando piamente que se elas se sacrificarem, mudarem muito as suas realidades, mudarão também a forma como a pessoa se relacionará com elas. Ledo engano! Ninguém gosta mais ou menos de você pelo que você pode vir a ser - só as pessoas sem caráter! Quem tenta mudar a si mesmo para agradar os outros, está na verdade querendo que o outro mude pra si. Não se ensina ninguém a gostar da gente. As pessoas se aproximam, gostam umas das outras de maneira espontânea e deixam de gostar de maneira induzida, mas na maioria das vezes não se dão conta disso. Aí passam a acreditar que os defeitos daquela pessoa não existiam ou que eram "cuidadosamente ocultados" e por muitas vezes até se culpam por não terem percebido antes. Outro engano. Na grande maioria das vezes, os defeitos estão ali, bem às claras, pra quem quiser ver. Só que o ser humano tem o hábito de enxergar as coisas da maneira que melhor lhe convier.

É o que acontece, por exemplo, com quem se apaixona por uma pessoa volúvel, frívola. Cada demonstração de carinho que aquela pessoa oferecer é encarado pelo receptor como uma deferência única, uma prova incontestável do quanto ela é especial. Mas se recusa a enxergar que a pessoa falou exatamente a mesma coisa no relacionamento anterior, pro parceiro anterior. E muito provavelmente vai repetir num relacionamento futuro. É uma mania nata do ser humano achar que "com ele vai ser diferente porque ele é especial". Todos somos especiais pra alguém. O problema maior é que na maioria das vezes queremos ser especiais pra quem não acha isso de nós. É quase como um desafio irresistível. Vejo amigas e amigos se relacionando hoje em dia, com pessoas que possuem os mesmíssimos defeitos que tanto criticam em seus ex. O que pode ser isso senão cegueira e insanidade temporária, como falei anteriormente?

Isso também vale pras amizades e relações profissionais! Quem teve um amigo sacana provavelmente terá outros e se recusará a enxergar, até ser sacaneado. Quem trabalhou com uma pessoa aproveitadora e se deixou explorar, certamente encontrará outros aproveitadores pelo caminho e vai se deixar explorar de novo. Há quem chame de karma. Eu já enxergo como ignorância emocional.

Bom, como no momento não preciso me preocupar com o tipo de pessoa que poderei me envolver amorosamente, pois tenho namorado, tenho escolhido meus amigos e colegas de trabalho por critérios poucos usuais. Os colegas de trabalho escolho de acordo com a ambição - se estiver muito distante da minha é certeza de problemas adiante - se for muito maior, em algum momento serei usada como escada. Se for muito menor, corro o risco de me tornar excessivamente condescendente. Já os amigos, agora os escolho pelos defeitos. Se combinarem com os meus: ótimo! Jamais nos desentederemos por causa deles, já que temos os mesmos. Assim evito o risco de em algum momento ver projetadas em mim as frustrações alheias. E as qualidades, pouco importam! À medida que forem aparecendo, só vão acrescentar.


Demorei, mas aprendi - são os defeitos, não as qualidades, que determinam a saúde das relações humanas.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Cuidando do próprio jardim

O que faz uma vida valer a pena?

Perguntinha complicada e um tanto capciosa, não é? Conheço todo tipo de pessoas, com estilos de vida dos mais variados, que me dariam todo tipo de respostas. Das mais simples às mais complexas. Das mais filosóficas às mais fanfarronas. Das mais profundas às mais levianas. A vida é assim, as pessoas são assim - extremistas. De um modo geral, quem busca ou quem apresenta um equilíbrio, não é visto com bons olhos. É da natureza humana julgar segundo seus próprios conceitos.

Dificilmente as pessoas conseguem olhar para o outro lado do muro de uma maneira imparcial ou justa. E o mais impressionante: ao emitir uma opinião, quanto mais uma pessoa for moralmente questionável, mais duramente ela criticará as atitudes do próximo. E de um modo geral as pessoas criticam nos outros os seus próprios defeitos. É aquela velha história da grama mais verde no quintal do vizinho - só que o vizinho não precisa saber que você acha isso!

Tem muita gente pagando caro pela sua grama por aí e babando de raiva pela grama do vizinho, que nasceu sozinha no quintal. E põe defeito. E fala que o vizinho é um preguiçoso e um pão-duro, pois nem apara a grama e nem paga ao menino que cuida dos jardins da vizinhança para aparar. E reúne os amigos na sala de visitas para questionar cada metro quadrado de grama do outro lado da cerca, tecendo teorias tão plausíveis quanto equivocadas. Aliás, já dizia H. G. Wells, um de meus autores favoritos: "Todas as teorias erradas são perfeitamente plausíveis".

Mas o que essa pessoa não sabe, é que o vizinho cuida mais da grama do próprio quintal do que a própria pessoa cuida da sua. O vizinho não paga ao menino jardineiro, porque prefere cuidar ele mesmo de sua grama. O fato do vizinho nunca aparar a grama, cuidar do jardim e arrancar as ervas daninhas à vista de todos, não significa que ele não faça - apenas prefere manter sua privacidade. A pessoa não sabe, que o vizinho dedica o seu dia aos afazeres domésticos, profissionais e sociais e à noitinha, quando todos estão recolhidos em suas casas, o vizinho sai para tratar da grama com toda tranquilidade que aprecia. Prefere guardar aquele momento para si, sem interferências indesejadas de terceiros. É a sua grama, seu quintal, seu momento. Sua vida.

No dia seguinte, a grama está lá, aparada, verdinha, livre de mato e insetos. E a pessoa, maldosa como grande parte da Humanidade, não titubeia em aferir com arrogância para si mesma: "Não sei como esse vizinho consegue ter uma grama tão bem-cuidada, se não move uma palha pra isso! É um mistério... Eu pago tão caro pela minha, que vem de campos cultivados, pago sempre para o jardineiro tratar... E nem assim a minha é tão viçosa! Ainda descubro o segredo dele..."

Neste momento, o vizinho sai de casa com a família, a caminho da praia. O dia é de sol e todos parecem muito animados. O vizinho cumprimenta a pessoa por cima da cerca com um sorriso e um aceno. A pessoa se aproxima da cerca.

"O dia está ótimo pra uma praia, não é mesmo?" - diz o vizinho

"Infelizmente eu não posso me dar a esse luxo de passar um dia na praia. Hoje meu jardineiro vem cuidar da minha grama e você sabe que ela não custou barato, então, preciso ficar de olho o tempo todo, monitorando o que ele faz" - a pessoa responde

"Ah, mas o menino sabe o que faz, trabalha com isso faz tempo! Deixe a grama aos cuidados dele e vá curtir o dia de sol com sua família!" - fala o vizinho, alegremente

"Ah, isso que não! Você diz isso porque sua grama nasceu sozinha, você nem sequer cuida dela! Assim, se qualquer pessoa cuidar, já é lucro! Não é à toa que seu quintal está tão feio e abandonado, você vive ausente... Eu não! Eu paguei muito caro pela minha e pretendo dar valor!" - diz a pessoa, com arrogância

"Claro, é um direito seu. Como você disse, minha grama não me custou nada, talvez por isso ela não seja tão importante na minha vida. Agora com sua licença, vou à praia com a minha família, aproveitar o sol! Tenha um ótimo dia!" - disse o vizinho, sem perder o bom humor

Quem desses dois tem a melhor vida? A que vale mais a pena? A resposta é simples: não há resposta! Cada um acredita que a própria vida é a melhor que um ser humano pode ter.

O vizinho porque faz o que quer, quando quer, sem dar satisfações de nada a ninguém. A pessoa porque se orgulha de seu poder aquisitivo e pode pagar pelo que deseja.

O único problema é que durante o dia inteirinho o vizinho se divertiu com sua família na praia, esquecendo completamente a conversa com a pessoa pela manhã. Já para a pessoa, o dia foi inteirinho dedicado a pensar e tentar descobrir como o vizinho mantinha a grama tão verde...

E você? Está cuidando da sua grama ou só tem se preocupado com a grama do vizinho?

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A doce arte de desfazer amizades

Quanto mais o tempo passa, mais eu me surpreendo comigo mesma. É incrível o que determinados acontecimentos são capazes de fazer pela nossa vida.

Há alguns anos atrás, eu consideraria inaceitável a idéia de perder uma amizade, ainda que isso significasse sacrfícios excruciantes de minha parte. Ainda que eu acabasse por violar certos princípios, tudo era válido no empenho de manter um amigo. Hoje, penso completamente diferente.

De uns tempos pra cá, delimitei claramente na minha cabeça as fronteiras de uma amizade saudável. E o mais importante - aprendi a identificar as amizades doentes. Com essa nova visão, acabei me dando conta de algo que jamais havia reparado: o quanto eu me sacrificava em vão, por "amigos" que nunca fizeram por merecer. Quanto tempo da minha vida, quanta saúde, quantas horas de sono e de paz espiritual eu desperdicei abraçando problemas que não eram meus e nem de pessoas que mereciam sequer a minha consideração.

Não quero dizer com isso que seja fácil ou indolor eliminar amizades perniciosas de sua vida, mas é absolutamente necessário. Quando uma pessoa que só te traz dores e lamentações, que sempre te põe pra baixo, que abusa descaradamente da sua boa vontade, tem a capacidade de falar "me esqueça!", você pode ter certeza de que o erro foi seu. Todinho seu. Quem mandou você não chutar o encosto pra longe de sua vida? Quem mandou você ter peninha e compaixão por alguém que desconhece o significado da palavra respeito? Quem mandou você insistir em ter sentimentos por uma pessoa que é incapaz de amar a si mesma?

O consolo é que nunca é tarde demais pra aprender. Nunca é tarde demais para jogar fora os bilhetinhos, cartas e cartões de aniversário. Nunca é tarde demais para rasgar fotos e recados. Nunca é tarde demais para superar os anos de dedicação, totalmente perdidos. Nunca é tarde demais para amar a si mesmo antes dos outros e jogar fora as laranjas podres do cesto, antes que apodreçam as boas.

E nunca é tarde demais para dizer ao ex-amigo ingrato:
EI, EX-AMIGO: VAI TOMAR NO CU!


E sair com seus amigos verdadeiros pra comemorar a alegria e a liberdade de ter ao seu lado apenas pessoas nas quais se pode confiar, que te respeitam e que conhecem o real sentido da palavra amizade.